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Ciência, tecnologia e ideologias

 

A tentativa de misturar ciência e ideologia nunca dará em boa coisa


pOR ABEL REIS - gLOBO.COM

Em plena pandemia, quando mais precisamos de ciência e de tecnologia, ambas são ameaçadas pelo paradoxo de alimentar a própria ruína. Quanto mais se tornam acessíveis às pessoas, quanto mais resolvem nossos problemas e atendem nossas necessidades, quanto mais ampliam nosso poder de comunicação e expressão, mais elas são utilizadas para negar sua própria essência.

Internet, redes sociais, apps de mensagem, editores de foto e de vídeo, robôs e toda a sorte de algoritmos – frutos da inovação tecnológica e científica – vêm contribuindo justamente para legitimar conteúdos distorcidos e perigosos. As ferramentas digitais possibilitam criar e multiplicar, em larga escala e alta velocidade, crenças que vão dos malefícios das vacinas à conspiração do aquecimento global, passando, agora, pela “mentira” do coronavírus ou por curas milagrosas da doença (as emas que o digam...).

A serviço de uma posição ideológica que se considera “do bem”, princípios como a razão, a comprovação científica e a busca da verdade vêm caindo por terra. Ou não, se ela for plana... O cenário ganha contornos trágicos porque reúne obscurantismo e lideranças com gigantesca influência digital. Tudo isso em meio à luta contra um mal que estamos aprendendo a conhecer e a conviver.

Não é por outro motivo que o Facebook, pela primeira vez, apagou um post do presidente americano – continha informações falsas sobre a Covid-19. Não bastasse o erro ser cometido pela autoridade máxima de uma nação, trata-se do país mais relevante na geopolítica mundial e com um número enorme de vítimas do coronavírus. A rede tão indevidamente explorada por Trump para se eleger cometeu censura ou foi responsável? Era isso ou arcar com o peso de espalhar mais dor e morte pelo mundo.

Trump lá e Bolsonaro cá atrelam o discurso pseudocientífico ao combate à esquerda e a outros inimigos da moral e dos bons costumes. Não são pioneiros, nem criativos. No século passado, o agrônomo Trofim Lysenko, apoiado por Stalin, misturou política e uma teoria da evolução furada, na tentativa de livrar a União Soviética da fome e do pensamento “burguês”, criando assim uma quimera: a biologia soviética. Acabou entrando para a história como um grande charlatão. 

Ciência é busca autêntica por conhecimento verdadeiro e tecnologia a sua instrumentação ética. Ideologia será toda forma de conhecimento falsificado por objetivos políticos, religiosos ou pessoais. A tentativa de misturar ciência e ideologia nunca dará em boa coisa. Ainda mais potencializada pelo palco globalizado da comunicação digital. 

Nesse sentido, é fundamental que as plataformas globais massivas imponham limites éticos ao charlatanismos e aos detratores de uma visão de mundo bem informada, aberta, tolerante e justa. Foi sob tal signo que a internet nasceu, e por ele devemos perseverar.

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